terça-feira, 15 de fevereiro de 2011


Derrubando mitos do filho único - Parte 2


Outro motivo importante da redução de tamanho das famílias é a entrada da mulher no mercado de trabalho, algo incompatível com uma prole numerosa. “As pesquisas mostram que a maioria dos lares com filhos únicos é composta por casais com dupla renda”, diz José Eustáquio Diniz Alves, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Até a idade adulta, o gasto com a criação de um filho pode chegar a R$ 1,6 milhão para famílias com renda de R$ 25 mil e nada desprezíveis R$ 400 mil para famílias de renda entre R$ 2 mil e R$ 3 mil, de acordo com a consultoria Invent (leia na pág. 63). Ao colocar na ponta do lápis os gastos da primeira gravidez, a jornalista carioca Maria Fernanda Delmas decidiu lançar o livro “Olha Quem Está Poupando” (Ed. Elsevier), em que orienta os pais a controlar os gastos. “Ao decidir ter um filho, o casal deve conversar sobre as implicações para o bolso. Três gastos saltam muito: empregada doméstica, creche ou escolinha e saúde”, afirma.



Sem restrições financeiras para formar uma família, a enfermeira Elaine Dominicis Dias Pereira, 43 anos, sonhava com uma casa cheia. Mas ao tentar engravidar, aos 30 anos, descobriu que precisaria da ajuda de tratamentos de fertilidade. Foram várias tentativas frustradas du­rante quatro anos até que ela finalmente engravidou quando morava nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, ela se controla para não mimar Victoria, 11 anos. Da escola à aula de equitação, a menina está tendo a melhor educação possível para que se torne, nas palavras da mãe, “uma pessoa sociável e de bom coração”. Para isso, Victoria acompanha Elaine em um projeto social e vende brigadeiros para arrecadar brinquedos para as crianças no Natal. “Essa é a liberdade que você dá para o filho único. Ela tem iniciativa, e pago para ver onde vai dar”, diz Elaine. Mas nas negociações familiares, a menina quase sempre ganha a mãe na lábia. “Ela tem senso de liderança”, derrete-se.


Ao contrário de Elaine, que desejava ter mais filhos, a educadora Elisângela Hernandes, 29 anos, no sétimo mês de gravidez, está convicta de que esta será sua única gestação. Ela e o marido planejaram detalhadamente a experiência. “É um aprendizado nosso, entender o filho, o que significa cada choro.” Especialistas explicam que, com um acesso cada vez maior ao planejamento familiar, cresceu a expectativa sobre a experiência da maternidade. “As pessoas desejam que ela ocorra de forma idealizada: o quarto perfeito, o momento ideal, o companheiro certo”, diz a psicanalista Diana. “Muitos filhos únicos são tidos únicos na expectativa de que seja produzida uma experiência ideal e que seja um fardo menor”, afirma.



O lado mais sombrio da geração de filhos únicos está no envelhecimento. Na fase adulta, eles terão de lidar sozinhos com os cuidados e a perda dos pais. “É muito pesado não ter com quem dividir o fardo do cuidado”, afirma Diana. Filho único, o técnico carioca Alessandro Cardoso, 33 anos, decidiu reproduzir sua experiência com o filho, Erik, 5 anos. “Minha mãe tinha dedicação duplicada comigo, mas não cheguei a ser mimado”, recorda. “O problema foi a partir dos 12 anos, quando comecei a sentir falta de irmão mais velho, alguém que pudesse me orientar, servir de referência”. Fazendo um balanço geral, ele acredita que ser filho único teve mais fatores positivos do que negativos. Sua opção por não dar irmãos a Erik se deve às exigências da vida moderna. “Eu e minha mulher trabalhamos o dia todo. Já é difícil dar atenção a um filho, imagine a dois.” Embora mais tranquila, a opção ainda é alvo de críticas. “Mais do que os amigos, irmãos ajudam a aprender a dividir as coisas, lidar com frustrações e conviver”, afirma a terapeuta familiar Marina Vasconcellos. Famílias com uma única criança tendem a ser mais estáticas também. “Ter mais pessoas implica ampliar o repertório familiar”, afirma a terapeuta familiar Maria Amália Salles.



Mas ninguém deve resolver ter mais filhos por isso. Ou porque a criança pede insistentemente um irmãozinho. “Os pais têm o direito de decidir quantos filhos vão ter. Basta apenas que arquem com as responsabilidades naturais desse ato e usem dois elementos básicos: equilíbrio e bom senso”, afirma Tânia Zagury. Agindo assim, as chances de se criar pessoas saudáveis são muito maiores. Cabe aqui a velha máxima, tão usada na educação dos filhos, da qualidade em prol da quantidade.

Olha que legal a matéria da revista Isto É


Derrubando mitos do filho único - Parte 1

Esqueça os estereótipos sobre crianças que crescem sem irmãos. Especialistas garantem que elas podem se tornar adultos tão ou mais saudáveis do que aquelas que crescem em grandes famílias


Visto pelos colegas de escola como um ser solitário, até um pouco estranho, e observado pelos adultos à sua volta com um ligeiro ar de pena, o filho único era sinônimo de garoto mimado, egoísta e, por vezes, antissocial. De fato, representava uma exceção na família brasileira. Mas mudanças sociais e econômicas estão deixando a árvore genealógica nacional cada vez mais enxuta e as crianças sem irmãos avançam nas estatísticas e se tornam regra, sobretudo nos grandes centros urbanos. Se nos anos 1960 os casais tinham, em média, mais de seis filhos, hoje não chegam a dois por família (leia na pág. 65). A boa notícia é que o patinho feio virou cisne: especialistas afirmam que reinar soberano entre pai e mãe não torna a pessoa necessariamente complicada. Ao contrário, tende a garantir adultos mais bem formados e inteligentes.

Um dos motivos é a concentração de investimento no único rebento. A pesquisadora americana Judith Blake, por exemplo, concluiu em seu livro “Family Size and Acheivement” que os filhos únicos têm melhor desempenho escolar e se tornam adultos mais bem-sucedidos profissionalmente do que as crianças criadas em famílias grandes. A gerente administrativa Simone, 34 anos, e o administrador Carlos Miletic, 48, não conheciam a teoria de Judith, mas a aplicaram na prática quando decidiram ter apenas Carolina, 9 anos. “Com os gastos da primeira gravidez, comecei a considerar se queria ter um segundo filho”, diz Simone. Carol é uma criança “irrequieta, que vale por muitos”, segundo o pai, se beneficia da atenção integral dos dois e não pede irmãos. “Ela convive bastante com outras crianças, da escola e do prédio, vai brincar na casa das amigas, que vêm para a nossa também”, diz Miletic.


A conformação atual da sociedade contribui para derrubar o mito do filho único reizinho. Afinal, cada vez mais os pais prezam seus interesses pessoais. “O filho único acaba tendo que dividir seus pais com outras prioridades da vida deles. Então ele já não é tão soberano assim”, afirma a psicanalista Diana Corso, ela própria filha única, que vê uma virtude em crescer sem irmãos. “A experiência da solidão pode ser positiva”, diz. “A capacidade de estar só é um dos importantes momentos de constituição da identidade e da imaginação.” A professora Sylvia Tosta, 44 anos, mãe de Vinícius, 11, se surpreende a cada dia com o rico universo interior que seu filho está construindo. Para ela, o fato de ele não ter irmãos não quer dizer necessariamente que ele seja mais introvertido. “Não posso enquadrá-lo em nenhum rótulo. Vinícius tem suas próprias características, é sociável, aberto ao mundo”, descreve. A professora reconhece que no início agia de forma equivocada. “Minha tendência era colocá-lo numa redoma, mas ele é muito independente e me ensinou a fazer a coisa certa”, avalia.



O estereótipo do filho único problemático nasceu em 1896 com o livro “Of Peculiar and Exceptional Children”, do psicólogo americano Granville Stanley Hall. Nele, o especialista descrevia os filhos únicos como mimados, pouco sociáveis e desajustados irremediáveis. Por décadas, esse estudo influenciou outros pesquisadores, até que trabalhos mais recentes indicaram que não há diferenças significativas no desenvolvimento emocional dos filhos criados sozinhos daqueles educados entre irmãos. “Acreditava-se que, por ter apenas um filho, a mãe e o pai iriam superprotegê-lo de um lado e cerceá-lo de outro, o que poderia causar alguns transtornos”, afirma Tânia Zagury, filósofa e autora do livro “Educar sem Culpa”. Na verdade, pais podem ser indulgentes, superprotetores ou permissivos demais seja qual for o tamanho da prole. O problema é que, se forem superprotetores com uma criança só, isso pesa mais sobre os ombros do pequeno. Também há essa falsa ideia de que o filho único é mais solitário. “Conheço famílias em que os irmãos brigam constantemente e crescem sem falar uns com os outros. É tudo muito relativo”, diz Tânia.



Não há nada no histórico da instrumentista Ana Lúcia Miwa Kobayashi, 26 anos, que dê pistas de que ela tenha o estereótipo de filha única. Com um bom currículo escolar, a jovem estuda para ingressar no doutorado de música brasileira do século XX, toca piano e violoncelo, trabalha, sai com os amigos, namora – uma rotina na qual nada reflete o estereótipo de filha única. “Como era só eu, pude fazer todos os cursos que quis, todas as viagens que desejei. Mas meus pais pegavam muito no meu pé, principalmente em relação à escola”, afirma Ana Lúcia. “A gente não a criou como se fosse filha única, fomos linha-dura. A Ana não teve colher de chá”, completa o pai, Minoru Kobayashi, 63 anos.



Bom rendimento escolar costuma vir no pacote de características dos filhos únicos, de acordo com a psicóloga educacional americana Toni Falbo, que analisou os resultados de anos de testes padronizados que avaliavam habilidades matemáticas e de expressão verbal, comparando filhos únicos com aqueles de famílias maiores. A conclusão é que, no caso das crianças sem irmãos, a pressão vem de dois lados: junto com a cobrança dos pais, elas mesmas tendem a ser mais exigentes consigo mesmas, pois têm como referência os adultos ao redor. Um estudo de 2004 da Universidade Federal do Rio Grande do Sul confirma a tese. O trabalho constatou que, entre os alunos que tiraram as melhores notas, havia uma porcentagem maior de filhos únicos.



Mas por que os lares brasileiros estão diminuindo de tamanho? Entre os motivos da queda da fecundidade está o processo de urbanização do País (com isso, há menos necessidade de filhos para atuar como mão de obra na lavoura) e o avanço da educação, que amplia o acesso a métodos contraceptivos. Nos países desenvolvidos, o processo está mais avançado. Joshua Goldenstien, diretor do Instituto de Pesquisa Demográfica Max Planck, na Alemanha, escreveu um artigo com a observação de que a próxima geração de pais austríacos e alemães será a primeira em que o filho único é a regra e não a exceção. Nos anos 1960, a Europa representava 20% da população mundial. Em 2060, é esperado que ela corresponda a apenas 7,5%.