terça-feira, 23 de março de 2010

Texto da blogueira Renata Miranda Raganin. Tudo de bom!!!

Fico me perguntando qual deve ser minha resposta quando me questionam exageradamente sobre ter ou não outro filho. Fico pensando onde está escrito que tenho que ter obrigatoriamente dois ou mais filhos para ser considerada “normal” para os padrões da sociedade.
Porque as pessoas cobram isso? Porque sem saber nosso histórico de vida ficam insistindo com perguntas desagradáveis fazendo um dramalhão mexicano dizendo que deixar um filho sem irmãos no mundo é muito triste. Triste porquê?
Triste seria se ele não estivesse rodeado de amigos, com amor, atenção e carinho integral dos pais, fosse isolado do mundo sem comunicação com mais ninguém. Triste seria se fosse cheio de irmãos com uma mãe sem tempo para todos, estressadíssima, sem dinheiro para nada, porque se uma criança interfere drasticamente no orçamento doméstico, imagina três ou quatro a mais dentro de casa para sustentar. Triste seria não ter disposição para conversar e fazer um carinho tranqüilo depois de um dia exaustivo de trabalho porque tem que dar jeito em todos ao mesmo tempo. Muitas mães conseguem fazer isso com maestria, mas eu não. Eu preciso do meu tempo, do meu momento de silêncio, de paz, de tranquilidade, mesmo adorando ser mãe.
Escolhi ter filho único depois de dois anos e meio de tratamento sem sucesso para ter o segundo filho. Decidi que seria bom poder proporcionar uma qualidade de vida melhor para o meu filho, que por ser um só pode ir para a melhor escola, ter os melhores cursos e aproveitar o melhor dos pais com mais calma. Com isso sobra mais tempo e mais dinheiro para a família toda viajar e aproveitar a vida com mais lazer. Basta ter uma boa estrutura familiar (psicológica) e saber educar esse filho com consciência de que ele não é o centro do universo e observar para que ele conviva com muitos amigos e primos para que não se sinta tão só.
Hoje os tempos são outros e educar e transformar esse filho num adulto bem resolvido e com sucesso em suas escolhas profissionais e de vida, é extremamente difícil e torna-se menos complicado quando temos um filho apenas para nos dedicarmos.Tempo e dedicação, criar filho não é fazer bolo todo ano e nem achar que é levá-lo todo fim de semana para fast food. É educar, pagar dentista, médico, farmácia, controlar as notas na escola, triglicerídios, colesterol e se está acima ou abaixo do peso.Educar bem uma criança é algo que exige muita paciência, dedicação e busca constante de informações. É abdicar de um tempo que se poderia estar fazendo outra coisa infinitamente mais prazeirosa. Passar valores, pensar a longo prazo, corrigir, dar limites, prepará-lo para o mundo.Acho dois filhos um bom número. Acho importante poder dividir a vida com um irmão. Mas não consegui fazer esse irmão e estou feliz com meu Guilherme. Só espero que as pessoas percebam isso e cuidem de suas vidas sem interferir no que não é de sua conta. Respeitando as escolhas dos outros observando suas palavras grosseiras quando questionam o porque das coisas.Aqui concluo o texto, mas vou complementar abaixo com perguntas frequentes que me fazem e que se você, como eu, se indigna com essas pessoas aqui vai algumas respostas que imagino enquanto elas falam comigo e dou um sorrisinho amarelo enquanto as escuto:Mas você só vai ter um filho?????????????????????(A quantidade exagerada de pontos de interrogação é de propósito, nessas horas me sinto uma alienígena com três seios e quatro olhos)Sim, porque? Tu pretendes pagar o tratamento de fertilização, sustentar e criar o outro pra mim?Mas você vai ser tão desnaturada a ponto de deixá-lo sozinho na vida sem irmãos?A princípio eu não queria ser assim tão desnaturada, desalmada, malvada e desumana porque tentei fazer outro filho e não deu muito certo, eu estava virando uma baleia e inchando meus ovários até quase explodí-los, ficava tonta, com ânsia de vômito e tinha que controlar a temperatura de todos os buracos do meu corpo a cada período de ovulação, além de perder a paciência com testes de gravidez negativos que estavam me causando frustração e tristeza.
Passava cinco dias seguidos por mês me deparando com um aparelho de ecografia transvaginal para ver se a ovulação estava ocorrendo e depois de toda essa intimidade, tinha que olhar para a cara do médico na fila do pão no supermercado. Já estava ficando chato! Me dei conta que não tinha dinheiro para inseminação artificial, porque não queria gastar com tentativas e até gastaria se fosse uma vez só e com resultado certeiro mas prefiro curtir meu filho único e viajar com ele por aí com esse dinheiro. Fora isso, ele tem primos e vive num ambiente rodeado de amigos da idade dele. Com certeza terá apoio quando a mamãe e o papai estiverem com Alzheimer e ele tiver que nos colocar numa clínica geriátrica chiquérrima para seguir com sua vida. E quando morrermos não terá que esperar sete anos para um inventário ser concluído. Ficará com a herança e pronto! Simples assim! Partidão esse meu filho, hein? Aliás, já vou avisá-lo que herança não entra em partilha de casamento para minha futura nora não se adonar do que é meu. Ai,ai,ai!Mas imagina que triste você só com um filho no natal e sem poder ter aquela família grande para compartilhar as coisas da vida? E quando você ficar velha, como vai ser?Minha filha, venho de uma família enorme e meus natais são mais agitados que uma escola de samba em sábado de carnaval. Natal pra mim é família toda, mãe, pai, cachorro, papagaio, periquito, bisavó, namorada do primo do tio na mesma casa fazendo um festão e comendo até estourar, portanto não existe a possibilidade de natais tristes na minha vida com a melancólica cena: mamãe, papai e filho mudo sentado na mesa na ceia de natal.E quando eu ficar velha meu filho vai estar velho comigo porque fui mãe nova e to podendo... Sou inoxidável! Quando eu tiver sessenta e cinco anos ele terá 41 e eu pretendo estar na minha décima lipo, com uma carinha de 45 que é só o que imagino quando entupo a pele de Renew todos os dias. Viajando muito, curtindo muito a minha vida e quem sabe me encontrando com ele de vez em quando em algum lugar do mundo numa das nossas viagens malucas por aí. Sim, porque se você calcular quanto um filho gasta em vinte anos, se colocar na poupança o dinheiro do filho que você não teve, vai dar para fazer tudo isso e muito mais. Acredite! Logo, ter filho único não é tão ruim assim. Além disso eu elimino aquela fase que eles tem de disputas e brigas que tiram qualquer um do sério e se meu filho se envolver com drogas terei que internar só um. Muito mais fácil.Mas existe a velha frase: Quem tem um não tem nenhum. Seu filho pode morrer e você não ter outro pra te consolar.Bem, a perda de um filho é a maior dor que pode existir para uma mãe. Se você perde os pais, fica órfão. Se perde o cônjuge, fica viúvo. Perder filho é tão horrível que não existe nem nome pra isso. Mas viver é um risco e podemos inclusive perder dois, três ou quatro filhos num mesmo acidente. Não existe nada que amenize essa dor. Que isso nunca me aconteça, mas por você me dizer um absurdo desses eu gostaria que te desse uma diarréia e um vomitório de cinco dias seguidos para nunca mais dizer algo tão negativo para uma mãe de filho único, sua broaca! Te some da minha frente! Vai envenenar outra mente!Mas você já tentou outros tratamentos? Sei de um ótimo que pode explodir o útero te dar uma gangrena e te levar a morte, mas as chances de engravidar são excelentes!Pôrra! É da minha saúde que estamos falando! Preciso estar viva para criar o filho que já tenho e com mente e corpo saudáveis para conceber esse segundo filho. Não vou correr riscos me entupindo de boleta e interferindo no funcionamento do meu organismo para fazer bonito para os porta-retratos com a família tradicional papai, mamãe e um casal de filhos. Vai cuidar da sua vida pô! Tenha quinze filhos se quiser, mas CASTABOCA!Dá ou não dá vontade de responder assim? kkkkkkPara as mães de filhos únicos aconselho um livro maravilhoso: "Criando Filho Único" de Carolyn White. Editora M.Books.Um erro que foi cometido não precisa ser repetido — se os pais tiverem ciência de como evitá-lo. Com base nas experiências de vida de Carolyn White – editora da revista Only Child, mãe e educadora – e centenas de entrevistas com filhos únicos e pais de filhos únicos, o livro Criando Filho Único mostra e celebra as recompensas de ter filho único e as oportunidades especiais de relacionamento e interação no ambiente familiar.
É perfeito e nos faz ter a visão à longo prazo do que devemos fazer hoje para torná-los bem sucedidos na vida amanhã, sem deixar aquele velho paradigma de que “filho único é problemático” atrapalhar nossas vidas, além de nos fazer refletir que não estamos aqui para agradar os outros e ter filhos baseados na opinião de quem nada sabe sobre o porque de nossas escolhas.Que fique claro que o texto de hoje não é uma crítica a quem tem mais filhos, mas um desabafo de quem tem um filho único e decidiu que vai ser feliz assim sem se sentir culpada por não seguir os padrões considerados “normais” pela sociedade, aproveitando todo o lado bom de se ter só um. Apenas isso.
Mas se por acaso eu engravidar, comunicarei imediatamente as “questionadoras de plantão” e prometo cancelar a viagem para a Europa em 2011 para sobrar mais dinheiro para fraldas, babá, remédios e pediatra, prometo ok? Agora com licença que a MINHA VIDA tá me esperando.

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